Dizem que a história se repete, sempre. E hoje, 20 anos depois ela se repetiu – na chave feminina de Roland Garros.
Jelena Ostapenko, 20 anos, sem nunca ter conquistado um título de WTA, sem ser cabeça-de-chave em Paris (é a 47a do ranking), e nascida no mesmo dia que Gustavo Kuerten venceu o seu primeiro Roland Garros (08 de junho de 1997), sem nunca ter vencido um título na ATP e sem estar entre os cabeças (era o 66o.), venceu Roland Garros 2017.
Ostapenko derrotou na final a favorita e número três do mundo, Simona Halep, por 2 sets a 1, de virada, por 4/6 6/4 6/3 em 1h59min na quadra Philippe Chatrier. E como mais uma coincidência dos fatos, se tornou a tenista mais jovem a vencer em Roland Garros, desde que Iva Majoli conquistou o torneio, aos 19 anos e 300 dias, também em 1997.

Halep, vice-campeã 3 anos atrás quando perdeu para Maria Sharapova, chegou a liderar o jogo por 6/4 3/0 e com break point para fazer 4/0. Foi aí que o jogo começou a mudar. Ostapenko conseguiu impor a sua agressividade e foi minando o jogo da romena.
As duas com a mesma roupa Adidas Roland Garros, mas com estilos de jogo completamente diferente. Ostapenko tirou o ritmo de Halep e a torcida dividida – no começo mais para o lado da romena, passou a vibrar com a jovem letã que parece não ter medo de nada.
E assim foi até o match point.
“Ela foi melhor do que eu. Tenho que aceitar. Não me deu ritmo nenhum e eu tinha que correr atrás de todas as bolas. Ela é o tipo de jogadora que sai batendo e mesmo que erre algumas bolas, quando pega confiança, não erra mais,” lamentou uma abatida Halep. “Vou precisar de um tempo. Essa derrota dói mais, porque três anos atrás eu não sabia o que estava acontecendo, era tudo novo.”
Para Ostapenko, que três anos atrás ainda estava começando no circuito e cinco anos atrás ainda viajava com a equipe junior da ITF, comandada pela técnica brasileira Roberta Burzagli, ainda não deu tempo de perceber o que ela acabou de fazer. Conquistar um Grand Slam aos 20 anos de idade.
Como a história se repete mesmo, a primeira vez que a tenista veio a Roland Garros, com a técnica Bruzagli em 2012, não conseguiu entrar na chave juvenil. Como Guga, em sua primeira vinda ao torneio, conseguiu alguns ingressos para ficar assistindo os jogos, lembra a treinadora brasileira e se encantou com Roland Garros. “Desde cedo, desde que ela era juvenil já tinha essa mentalidade de campeã e pegava a bola na subida, batendo de swing volley sempre. É o estilo de jogo dela e assim ganhou Roland Garros,” analisou.
Ostapenko, que mencionou o Guga ainda na quadra Philippe Chatrier, falou que sabe das semelhanças e que talvez o brasileiro “seja o seu número da sorte.”
Jovem, sorridente, treinada pela mãe e pela espanhola Anabel Medina Garrigues, com quem começou a trabalhar há um mês, no torneio de Stuttgart, com o mesmo empresário desde os 13 anos de idade, o italiano Ugo Colombini, Ostapenko trilha um novo caminho no circuito mundial. Não sabe o que esperar na volta a Letônia. Acredita que ainda vai conseguir sair na rua, sem ser notada – o jogo foi transmitido em Praça Pública no país – e ainda faz tudo de maneira rápida, como se fosse uma maquininha, como quando está em quadra, inclusive ao responder perguntas da imprensa internacional, curiosa com a nova estrela do tour.
Pela conquista do título, Ostapenko ganhou 2,1 milhão de Euros. Halep, que jogava também pelo posto de número um do mundo, além do primeiro título de Grand Slam, ficou com 1,06 milhão.
Se ela acha que não, com certeza a vida dela mudará.
Diana Gabanyi, de Paris
Foto de Cynthia Lum
