Recebi hoje de colegas da Argentina um vídeo com deficientes visuais praticando o esporte.
O vídeo me fez lembrar uma matéria que fizemos na Tennis View alguns bons anos atrás, relatando como funciona o esporte e contando as origens do “Blind Tennis,” no Japão.
Reproduzo aqui a matéria feita na época pelo repórter Leonardo Stavale.
“Tênis também é um esporte para os cegos.”
“Blind Tennis, ou Tênis para Cegos.” Esta frase causa espanto em qualquer pessoa que conheça o esporte e nunca tenha ouvido falar que os cegos também podem jogar tênis.
Tennis View também se espantou ao tomar conhecimento de que o esporte para deficientes visuais e cegos existia, e desde 1990 e descobriu que tudo começou no Japão, com um garoto de 16 anos e que hoje em dia existem campeonatos para a categoria.
Pouco difundido pelo mundo, o “Blind Tennis,” pode ser jogado por pessoas completamente ou parcialmente cegas, com algumas diferenças das regras do tênis profissional, como a bolinha, que é feita de esponja e com elemntos internos que fazem com que ela emita um som alto na hora que se aproxima do jogador.
Conheça, neste emocionante relato do jornalista Leonardo Stavale, como a vontade de jogar tênis, de um jovem do Japão, criou mais um esporte para os deficientes visuais e como, a exemplo do Tênis em Cadeira de Rodas e do Tênis para Surdos, o “Blind Tennis,” também pode vir a se tornar um esporte Paraolímpico.
O sonho de um adolescente japonês de 16 anos, parcialmente cego, fez nascer mais um esporte no mundo em 1986: o “Blind Tennis” (tênis para cegos e deficientes visuais). Com problemas na visão desde o nascimento, Miyoshi Takei (falecido em 2011) queria usar toda a parte perfeita de seu corpo para jogar tênis. O desafio era fazer o esporte em três dimensões, com a bola ‘quicando’. Isso porque nos esportes para cegos já existentes na época, como o voleibol, tênis de mesa e beisebol a bola era rolada no chão, ou seja, em apenas uma dimensão. Takei pediu auxilio ao seu professor de educação física, que se interessou pela idéia.
O primeiro desafio do estudante da Escola para Cegos e Deficientes Visuais da Prefeitura de Saitama, no Japão, era produzir uma bola especial que permitisse aos jogadores encontrá-la pelo som emitido quando a bola tocasse o chão. A primeira tentativa foi com uma bola de plástico, em que ele e seu professor inseriram, no seu interior, bolinhas de chumbo. O resultado sonoro foi eficiente, porém a bola não pulava de forma apropriada. Eles experimentaram vários outros materiais, mas a bola perfeita para o “Blind Tennis,” não estava pronta. Ainda.
Depois de se formar na escola, Takei iniciou um curso de educação especial em fisioterapia, em Tóquio. Mas a bola ideal não saía de sua cabeça. O estudante levou então a bola original ao “Centro Esportivo de Tóquio Para os Deficientes,” e pediu a um instrutor que jogasse tênis com ele. Em um primeiro momento o instrutor não acreditou muito na idéia daquela jovem, mas foi movido e inspirado pelo entusiasmo de Takei.
A bola perfeita e o sonho realizado
Um certo dia, Takei descobriu a bola utilizada no mini-tênis, importado da Suécia. Comprou uma dessas bolas, feita de material esponjoso e a partiu ao meio colocando dentro uma bola de tênis de mesa, que possui quatro bolinhas de chumbo no interior – para cegos e deficientes visuais.
Graças ao esforço do estudante, o “Centro de Reabilitação Nacional para Deficientes – NRCT,” em Saitama, iniciou um projeto para manufaturar a bola especial. Para completar a realização do jovem, o NRCT promoveu o primeiro torneio nacional no dia 21 de outubro, de 1990.
A professora Ayako Matsui do curso de fisioterapia onde Takei se graduou, começou a dar aulas de “Blind Tennis,” em 2003. Ela contou à Tennis View, que atualmente ensina o esporte para crianças a partir de cinco anos, perto de Tóquio, além de promover o esporte pelo País. De acordo com ela existem cerca de 300 praticantes no Japão. “Eu sei que na Austrália há uma associação para parcialmente cegos. Eu acredito que o Japão seja o único país onde se joga tênis para totalmente cegos.”
Amante do tênis, a Sra. Matsui abriu um clube para ensinar o “Blind Tennis” para crianças, podendo ajudar nas necessidades do portador de deficiência visual. “As crianças com problemas de visão não são boas no esporte, pois elas não podem se mover livremente e também não há tantas oportunidades de praticar. Isto não é bom para o desenvolvimento delas. O tênis é um excelente esporte para ensiná-las a localizar a bola e a posição na quadra. Elas precisam ouvir o som cuidadosamente, e de muita concentração. É um ótimo treinamento para as habilidades vitais delas,” explica a professora.
O fato de muitas crianças serem cegas desde o nascimento é a principal dificuldade. “Elas nunca viram alguém jogar tênis e por isso não têm como aprenderem copiando de alguém,” explica Ayako. “É muito difícil ensinar para as crianças o movimento do corpo. Leva muito tempo para que as crianças totalmente cegas consigam bater na bola. É preciso muita prática,” completa.
No Japão há um campeonato nacional disputado anualmente, em novembro. A média é de 70 participantes. Além do torneio nacional, existem outras 10 competições locais. Matsui desconhece qualquer outro torneio de tênis para cegos e deficientes visuais em outro lugar do mundo. No Brasil, não há registros do esporte para deficientes visuais.
Em janeiro deste ano, os japoneses começaram a promover o esporte internacionalmente, com uma visita à Inglaterra, que foi o segundo País a introduzir o “Blind Tennis.” O objetivo é incluir o esporte no programa dos Jogos Paraolímpicos.
O “Tênis para Cegos,” segue as mesmas regras de contagem do circuito mundial de tênis. Há diferenças no tamanho da quadra, quantidade de quiques. Confira as regras:
Quadra
– Comprimento: 13,4 m
– Largura: 6,1 m
– Dividida em duas metades por uma rede de 80cm de altura no centro e 85cm nas pontas.
– São necessários no mínimo três metros de espaço livre no fundo da quadra e dois metros nas laterais
– As linhas da quadra são feitas por fitas adesivas com uma linha de 2mm por baixo, para que os tenistas sintam a marcação da quadra
– Normalmente o Blind Tennis é disputado em ginásios fechados para que o som da bola fique ainda mais audível.
Raquete
– Raquetes Junior
Bola
– O diâmetro da bola esponjosa é de 9cm
– No centro da bola há uma outra de tênis de mesa que contém quatro bolinhas de chumbo para produzir o som ao tocar o chão
– Além de produzir o som, as bolas permitem aos deficientes visuais que indentifiquem a altura, direção e velocidade aproximada da bola.
– Pode ser amarela ou preta
– Cada bola é especialmente manufaturada e custa aproximadamente US$ 10
Categorias
– B1 (o ‘B’ é usado como abreviação de Blind) é para as pessoas totalmente cegas
– B2, B3 e B4 são parcialmente cegos. B2 é capaz de ver o movimento de uma mão quando ela se move em frente aos seus olhos. A falta de visão é abaixo de 0.03 ou a visão é abaixo de 5 graus. A falta de visão dos atletas B3 é acima de 0.03 ou a visão é acima de 5 graus. Para os jogadores B4 não há regulamentação para a falta de visão.
Os tenistas da classe B1 tem direito a três quiques. Os jogadores da B2 e B3 podem deixar a bola tocar o chão duas vezes. Na categoria B4 a bola pode pingar apenas uma vez.
Jogadores da classe B2, B3 e B4 podem jogar na categoria B1 com venda nos olhos.
Saque:
– O sacador deve pergunta “Ready?(pronto). Em seguida o recebedor deve responder “Yes” (sim). Após a resposta do recebedor, o sacador tem cinco segundos para sacar.
– Caso o recebedor não responda, e o sacador execute o golpe mesmo assim, um ‘let’ é chamado
– Tanto o sacador como o recebedor podem perguntar ao juiz ou boleiro qual a posição deles na quadra
Falta no saque
– Quando a bola não atinge a área de saque no primeiro quique
– Quando o sacador começa o movimento do saque, mas não atinge a bolinha
– Quando a bola atinge o recebedor diretamente sem encostar na quadra
– Quando o sacador atinge a bola correndo ou andando
Perda de pontos
– Em caso de dupla-faltas
– Quando não se bate na bola antes do número correto de quiques
– Quando alguém passa orientações durante o andamento da partida
– Quando a bola o atinge diretamente – se estiver dentro da quadra.
– Quando a bola toca duas vezes a raquete
– Quando o contato com a bola é feito na área do adversário (invasão)
– Quando alguma parte do corpo, ou da raquete encostar a rede antes do ponto acabar
– Quando a bola atinge o juiz
Contagem
– A contagem é igual ao do circuito profissional de tênis. No Japão, na maioria dos torneios o set vai até 4 games. Quando há empate em 3-3, joga-se um tie-break.
Outras Regras
– Quando os dois jogadores tem visão parcial, o sacador pode escolher a bola amarela ou a preta. Depois da escolha não se pode mudar a cor da bola até o final da partida. Em partida com tenistas sem nenhuma visão é utilizada a bola amarela.
– O jogador pode perguntar ao juiz a natureza do seu saque (o quanto saiu, se saiu lateralmente, etc).
– Se uma bola quebrar durante um rally joga-se o ponto novamente
* A professora Ayako Matsui possui um site na Internet com informações e regras do esporte e como organizar clínicas e conduzir aulas para deficientes visuais: http://www.hanno.jp/~matsui/
Para entrar em contato com Matsui, o e-mail é matsui-tennis@hanno.jp
Leonardo Stavale




