Transformar o tênis em um espaço seguro: do abuso à cultura de respeito

Por Debora Gabanyi Rays

Elena Rybakina (Dustin Satloff/USTA)

Mas não se trata de um episódio isolado. A ex-tenista Pam Shriver revelou em 2022 ter vivido um relacionamento traumático com seu treinador Don Candy quando tinha apenas 17 anos, enquanto ele tinha 50. O episódio deixou marcas emocionais profundas e expôs a vulnerabilidade de jovens atletas diante da autoridade de técnicos que acumulam poder psicológico e simbólico. Jelena Dokic, por sua vez, denunciou anos de abusos físicos e psicológicos por parte de seu pai e treinador, Damir Dokic, incluindo espancamentos e ameaças após derrotas. Esses casos, narrados em sua autobiografia *Unbreakable*, mostram como a violência pode se enraizar sob a capa de disciplina esportiva.

Outros exemplos incluem Mary Pierce, que sofreu com os gritos e manipulações do próprio pai-treinador, levando a WTA a instituir a chamada “Regra do Pai” para limitar comportamentos abusivos de familiares no circuito. A francesa Aravane Rezaï, considerada um fenômeno, também denunciou publicamente seu pai e treinador por agressões físicas, a ponto de a Federação Francesa de Tênis ter de suspender sua credencial em Roland Garros para garantir a segurança da jogadora. Esses relatos evidenciam que o problema não é episódico, mas estrutural e sistêmico.

Vendo os relatos, que provavelmente são poucos, muitos atletas permanecem em silencio, o treinador é visto como chave da carreira e o abuso confundido com dureza para fortalecer, acabam perpetuando a violência, que vem de diversas formas, nos abusos físicos, psicológicos ou sexuais, bem como a estrutural, na omissão institucional, ausência de regras eficazes e falta de fiscalização, sem falar na questão cultural, que romantiza a dureza extrema, colocando como sinônimo de profissionalismo.

Conflitos não resolvidos tendem à escalada e à repetição. Ao invés de respostas pontuais e midiáticas feitas somente quando há uma denúncia, é necessário criar estruturas que previnam a reincidência: formação ética obrigatória para treinadores, programas de comunicação não violenta, acompanhamento psicológico contínuo para atletas e canais de denúncia protegidos. Somente deixaremos de ter esses abusos se houver a transformação de relações e estruturas, e não apenas punições isoladas ao treinador denunciado.


Nesse sentido, preparar atletas desde cedo é uma medida indispensável. Ainda nas categorias de base, os jovens devem aprender a identificar limites éticos, compreender seus direitos e reconhecer sinais de comportamentos abusivos. Se o jovem com 16, 17 anos já está no circuito profissional, essa preparação tem que começar aos 11, 12 anos. Tal preparação não é apenas informativa, mas protetiva: envolve apoio psicológico, orientação familiar e uma rede institucional que garanta segurança mesmo diante de figuras de poder. Sem isso, o circuito profissional se torna um espaço onde a violência já chega consolidada.

Ao lado da formação de atletas conscientes, há a necessidade de mudar a própria cultura do esporte. A comunidade do tênis precisa abandonar a ideia de que disciplina se confunde com violência. Respeito e excelência técnica não são incompatíveis. O verdadeiro treinador é aquele que constrói confiança, não medo. Para tanto, as instituições — WTA, ATP e federações nacionais — devem assumir um papel ativo na criação de ambientes seguros, onde denúncias são ouvidas, vítimas são amparadas e abusadores responsabilizados de forma clara e duradoura.


Casos como os de Rybakina, Shriver, Dokic, Pierce e Rezaï demonstram que o desafio transcende a ética: trata-se de preservar a dignidade humana. O tênis, em sua essência, é um esporte de superação individual, mas essa individualidade não pode significar isolamento e vulnerabilidade. Transformar o tênis em um espaço seguro é condição para preservar sua credibilidade, seu futuro e sua alma.

Transformar esse ambiente é um desafio de longo prazo, mas inadiável: significa preparar atletas desde a infância, responsabilizar treinadores, reformar instituições e, sobretudo, criar uma cultura em que respeito e excelência caminhem lado a lado. 



Fontes utilizadas

– The New York Times, Tennis: Elena Rybakina, Stefano Vukov, ex-coach banned, WTA (2025).
– The Guardian, Pam Shriver had ‘traumatic’ affair with 50-year-old coach when she was 17 (2022).

– BBC Sport, Jelena Dokic on abuse from father Damir Dokic (2025).

– ESPN, Aravane Rezaï accuses father of physical assault (2011).

– WTA historical records on “Father Rule” (2000s).

– Bruce Dayton & Louis Kriesberg, Constructive Conflicts: From Escalation to Resolution (Rowman & Littlefield, 2022).

– Charles Hauss, From Conflict Resolution to Peacebuilding (Bloomsbury, 2022).

– Johan Galtung, conceitos de violência direta, estrutural, cultural, paz negativa e paz positiva.

Bia vence Rybakina e está nas quartas em Stuttgart

A tenista brasileira Beatriz Haddad Maia, 14a colocada no ranking mundial, está nas quartas de final do WTA 500 de Stuttgart.

Porsche Tennis Grand Prix Beatriz Haddad Maia

Ela derrotou nesta quinta-feira a número 7 do mundo, Elena Rybakina por 6/1 3/1 desistência, para avançar na competição indoor no saibro. É a segunda vitória seguida de Bia com desistência da adversária. Na estreia ela venceu Martina Trevisan também por abandono da oponente.

Para avançar à semifinal a tenista do Brasil terá que passar pela talentosa Ons Jabeur, 4a na listagem mundial.

“Eu ainda preciso curtir esse momento para pensar no jogo depois com a minha equipe, mas com certeza vai ser um outro desafio. As melhores do mundo estão jogando aqui,” disse Bia.

Diana Gabanyi